Tornou-se comum encontrar afirmações de que o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e trauma estariam relacionados.
O primeiro sendo consequência do segundo.
No entanto, artigo na Psychology Today – “ADHD Isn’t a Trauma Response” -, do psicólogo Scott Kaufman, desafia tal afirmativa.
Com evidências, ele traz um olhar mais amplo sobre as origens, desafios e potenciais desse diagnóstico.
Índice

O que a ciência diz sobre o TDAH?
Segundo Kaufman, novas pesquisas apontam que o TDAH e trauma não estão correlacionados necessariamente. E que TDAH não é uma doença nem uma simples resposta ao trauma.
Estudos recentes na área da genética mostram que há uma base hereditária significativa para o transtorno.
Evidências indicam que traços relacionados ao TDAH têm forte influência genética.
Além disso, há um movimento crescente na psicologia que questiona a forma como os diagnósticos psiquiátricos são construídos.
A abordagem do Hierarchical Taxonomy of Psychopathology (HiTOP), por exemplo, sugere que transtornos como o TDAH não são categorias fixas.
Eles são uma combinação de diferentes traços de personalidade que variam de pessoa para pessoa.
A relação entre trauma e TDAH
Traumas na infância podem agravar certos sintomas associados ao TDAH.
No entanto, Kaufman argumenta que isso não significa que o transtorno seja causado pelo trauma.
Ele ressalta que há uma relação bidirecional. Crianças com traços de TDAH são mais propensas a vivenciar experiências adversas.
Essas experiências podem intensificar dificuldades que já existiam devido a fatores biológicos.
Outro ponto destacado no artigo é que o ambiente pode influenciar a forma como as características do TDAH se manifestam.
Crianças diagnosticadas com o transtorno podem ter maior dificuldade em se adaptar a determinados contextos. Isso não significa que seu comportamento seja exclusivamente um reflexo de traumas vividos.
TDAH: desafios e potenciais
Ao longo do artigo, Kaufman questiona a visão tradicional do TDAH como um transtorno essencialmente negativo. Ele aponta que, dependendo do contexto, características como impulsividade e criatividade podem se tornar pontos fortes.
O que pode ser visto como um “déficit” em um ambiente escolar tradicional pode, em outras situações, ser uma vantagem. Essa vantagem pode se manifestar na inovação e na resolução de problemas.
Ele também critica a ideia de que o diagnóstico de TDAH significa, necessariamente, uma doença ou disfunção.
Para ele, o transtorno só deve ser considerado problemático quando realmente prejudica a qualidade de vida da pessoa.
Caso contrário, muitas dessas características podem ser apenas variações da personalidade humana.
Referências científicas
A seguir, algumas referências que aprofundam os pontos discutidos no artigo:
- Estudos sobre a base genética do TDAH:
TDAH e trauma: ainda estamos aprendendo
A discussão sobre o TDAH e trauma ainda está em evolução, e novos estudos continuam desafiando visões estabelecidas.
O artigo de Kaufman nos lembra que o ambiente influencia a forma como nossas características se manifestam. No entanto, não podemos ignorar o papel da genética e da neurobiologia no desenvolvimento do TDAH.
A melhor abordagem para lidar com o transtorno talvez não seja buscar um único culpado. Nem o trauma nem a genética.
Em vez disso, é importante entender como cada pessoa pode desenvolver estratégias para viver melhor com suas próprias características.
Mas, mais importante que isso. Precisamos imaginar formas de abraçar e nos adaptar, como sociedade, as pessoas que, por alguma razão, são diferentes de nós.
🔗 Leia o artigo completo em inglês: Psychology Today – ADHD Isn’t a Trauma Response. Recomendo, pois o artigo traz muito mais referências aos argumentos apresentados.
Referências
DEMONTIS, Ditte et al. Genome-wide analyses of ADHD identify 27 risk loci, refine the genetic architecture and implicate several cognitive domains. Nature Genetics, v. 55, p. 198-208, 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41588-022-01285-8. Acesso em: 19 fev. 2025.
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