Curitiba é frequentemente apresentada como modelo de urbanismo, sustentabilidade e planejamento. Mas à margem dessa narrativa bem-acabada, outras histórias persistem em silêncio. Histórias de apagamento, resistência e dor.
Quando olhamos com atenção para os territórios afro-brasileiros em Curitiba, surgem perguntas. Que espaços foram cedidos? Quais foram tomados? E, principalmente: como é viver em uma cidade que foi planejada para te esquecer?
Índice

A cidade como espelho das desigualdades
O artigo Territórios afro-brasileiros em Curitiba (2025) nos ajuda a entender algo importante. A segregação urbana não é um efeito colateral. Ela é parte da própria lógica de construção da cidade.
A exclusão da população negra dos centros urbanos não se deu por acaso.
Foi através de planos diretores, codificações normativas, políticas de incentivo à imigração europeia. Além disso, foram as remoções sistemáticas que permitiram que Curitiba consolidasse uma imagem branca e “europeizada” de si mesma.
Essa imagem, como destaca o artigo, ocultou não apenas a presença histórica da população negra no centro da cidade. Ela também ocultou a força das contribuições culturais, arquitetônicas e religiosas desse grupo.
Corpo, território e subjetividade
Para além das estatísticas e dos mapas de renda, é no corpo que as marcas do racismo urbano se manifestam. Viver nas franjas da cidade compromete o bem-estar físico.
A ausência de equipamentos culturais e de saúde faz isso ainda mais. Os territórios estigmatizados e vulnerabilizados afetam o bem-estar psíquico. Onde não há cuidado urbano, frequentemente também não há cuidado subjetivo.
Como não desenvolver ansiedade vivendo em territórios onde a presença policial é constante? A presença do Estado como agente de cuidado é mínima.
Como sentir-se seguro, quando seus lugares de referência histórica e espiritual são invisibilizados ou atacados?
A segregação territorial gera uma geografia emocional de medo, desconfiança e impotência. Isso afeta a autoestima, a construção da identidade e o senso de pertencimento.
O corpo negro, nesse contexto, é percebido como deslocado ou até mesmo indesejado em certos espaços da cidade.
Territórios como espaços de resistência
Apesar do apagamento, os territórios afro-brasileiros também são lugares de potência. Terreiros, centros culturais, memórias e resistências cotidianas desafiam a narrativa hegemônica e afirmam: as pessoas negras estão aqui, sempre estivemos.
Esses espaços não são apenas locais físicos. Eles também são formas de organizar a vida, a espiritualidade, o afeto e a cura.
Como lembra o artigo, os terreiros de umbanda e candomblé não apenas resistem à pressão urbanística. Eles criam outras formas de relação com a natureza, o tempo e a comunidade.
Eles funcionam como espaços de acolhimento, cuidado e reconstrução do eu.
O que a Psicologia tem a ver com isso?
Se partirmos do princípio fundamental de que o psicólogo deve atuar com responsabilidade social. Ele deve defender a dignidade humana.
Então precisamos reconhecer: o lugar onde se vive interfere diretamente no modo como se vive. E mais ainda: o lugar onde se é empurrado a viver diz algo sobre como a sociedade te vê.
A Psicologia deve considerar essas territorialidades como parte do processo de sofrimento. Elas também são parte da resistência subjetiva, não apenas dados externos.
Um atendimento verdadeiramente ético precisa considerar a história coletiva. Deve também considerar os atravessamentos raciais e espaciais presentes na vida da pessoa atendida.
Que cidade é essa que se constrói apagando parte de sua população? E que papel a Psicologia pode ter ao escutar as dores que brotam desse apagamento?
Conclusão: escutar a cidade que sangra
Escutar um indivíduo é, muitas vezes, escutar uma cidade através dele. Ao reconhecermos os territórios afro-brasileiros em Curitiba como espaços de memória, dor e resistência, não apenas fazemos justiça histórica. Também nos tornamos mais aptos, como psicólogos e cidadãos, a compreender a origem de certos sofrimentos e a não reproduzi-los.
Referência
VAZ, M. J. M.; PRYPLOTSKY, A. S. D. Territórios afro-brasileiros em Curitiba: considerações sobre arquiteturas, territorialidades e cidades. urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, v. 16, e20230263, 2024.
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