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Medicalização do suicídio: estudo questiona critérios de prevenção, mas ignora fatores sociais

    Por muito tempo, acreditou-se que as tentativas de suicídio estavam sempre associadas a transtornos, claro caso de medicalização do suicídio.

    No entanto, um estudo recente publicado no JAMA Psychiatry desafia essa ideia.

    Segundo os dados, quase 20% das pessoas que tentaram suicídio não tinham diagnóstico psiquiátrico antes da tentativa.

    A pesquisa sugere que a triagem do risco de suicídio deve ser ampliada. Mas ignora fatores sociais e históricos que conduzem as pessoas ao desespero.

    Ao focar apenas em diagnósticos, a psiquiatria corre o risco de reforçar a medicalização do suicídio.

    Em vez de compreender o sofrimento no contexto da vida das pessoas, transforma-o em uma questão clínica. O que significa ignorar as condições que tornam a existência insuportável para muitos.

    Medicalização do suicídio: uma pessoa sem esperança presa em um frasco de remédio.

    O que o estudo descobriu

    O estudo analisou dados do National Epidemiologic Study of Addictions and Related Conditions III (NESARC-III). Foram entrevistadas 36.309 pessoas, das quais 1.948 relataram já ter tentado o suicídio. Os principais achados foram:

    • 6,2% das pessoas que tentaram suicídio nunca tiveram diagnóstico psiquiátrico
    • 13,4% tentaram suicídio antes de qualquer transtorno mental
    • 19,6% tentaram o suicídio sem diagnóstico prévio
    • Mulheres tentam suicídio quase o dobro dos homens
    • O suicídio foi menos relatado entre pessoas acima de 50 anos

    Os autores afirmam que os critérios de prevenção são limitados.

    Hoje, muitas estratégias focam apenas em quem tem diagnóstico psiquiátrico. Isso pode deixar de fora um grande número de pessoas em risco.

    Transformar o suicídio em transtorno é ignorar o contexto social

    O estudo levanta a possibilidade de classificar o comportamento suicida como um transtorno próprio. Isso significaria que o suicídio deixaria de ser um sintoma de outros transtornos. Passaria a ser considerado um diagnóstico independente.

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    Esse tipo de abordagem fortalece a medicalização do suicídio. O sofrimento, que tem raízes em desigualdades sociais, passa a ser visto como uma doença do indivíduo. As consequências desse pensamento podem ser graves:

    • A ampliação da triagem pode levar a uma vigilância psiquiátrica excessiva
    • O foco no diagnóstico pode justificar mais internações involuntárias
    • O suicídio pode ser tratado apenas com medicação, sem considerar políticas sociais

    Se quase 20% das pessoas que tentam suicídio não têm transtornos psiquiátricos, a questão deveria ser outra. O que na sociedade está tornando a vida dessas pessoas insustentável?

    A psiquiatria ignora os fatores sociais do suicídio

    O estudo falha ao não considerar fatores estruturais que influenciam o suicídio. A precarização do trabalho, a falta de perspectiva e a violência cotidiana são ignoradas.

    A pesquisa de Émile Durkheim, em O suicídio, já mostrava que esse fenômeno tem determinantes sociais. As taxas de suicídio aumentam em períodos de crise econômica. Populações marginalizadas são sempre mais afetadas.

    Outro ponto negligenciado é a forma como diferentes culturas lidam com o suicídio. Em alguns contextos, ele pode ser um ato de protesto ou resistência. A psiquiatria, ao tratar tudo como doença, desconsidera essas nuances.

    Como prevenir o suicídio sem reforçar a medicalização?

    Expandir a triagem pode ser útil, mas não se o foco for apenas o diagnóstico. Algumas alternativas mais eficazes incluem:

    • Políticas públicas que garantam moradia, trabalho e assistência social
    • Acesso ampliado a serviços de saúde mental que não sejam apenas medicinais
    • Combate ao estigma do suicídio para que as pessoas falem sobre seu sofrimento sem medo
    • Integração entre psicologia, sociologia e antropologia para entender o problema de forma ampla

    A prevenção do suicídio não pode se basear apenas na psiquiatria. O risco de ampliar a triagem sem um olhar crítico é reforçar a medicalização do suicídio. Se o problema é a falta de sentido na vida e sua precarizaçao, não será um diagnóstico que resolverá isso.

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    Referência

    OQUENDO, Maria A. et al. Lifetime suicide attempts in otherwise psychiatrically healthy individuals. JAMA Psychiatry, v. 81, n. 6, p. 572-578, 2024.


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